Salve
Salve tudo que mia
Tudo o que respira
Tudo que faz, constrói
Edita
É – dito, bendito
Tudo que toca
Além de só dizer
Viver
Vi – vendo
Me vendo nos olhos d’el
Sorrindo
Só rindo, dançando com olhos infantis
Saia em retalhos, vermelho
Beijo macio...
É natural que todo artista
Presentemente represente muito pra mim
Quinta-feira, Maio 25, 2006
Sexta-feira, Maio 19, 2006
Cratera
Prédios com crosta de lodo. Água suja que escorre pelos cantos, gente buscando encanto,
em qualquer canto, encrostados, enrroscados... Debaixo do céu de uma estrela, em terra cinza de pedras, os pé ante pé caminham vãos... Pássaros caminhando pralgum lugar no labirinto de escadarias, crateras e tocas onde tenta se achar (O sentir-se mesmo).
E vamos, furando o ar da noite. Parece que só existe algo lá pra onde vamos, não aqui onde estamos. Porque? Não nos olhamos? Porque não nos olhamos? Olho pra cima. Folhas de papel avisam dançando no ar, que tem alguém que olha pra nos acertar: caixa no meio fio dos dedos de um rapaz de boné, em cima de um viaduto. Ele espera para acertar as formiguinhas insignificantes –“formigas/pássaro” que vem andando, e pra ver a caixa atravessar o ar e espatifar no chão.
Vontade de pular. Me vejo nele, no rapaz, querendo atravessar o ar na vertical. Querendo sempre não fazendo, refreando a vontade, refreando, refreando, refreando...
em qualquer canto, encrostados, enrroscados... Debaixo do céu de uma estrela, em terra cinza de pedras, os pé ante pé caminham vãos... Pássaros caminhando pralgum lugar no labirinto de escadarias, crateras e tocas onde tenta se achar (O sentir-se mesmo).
E vamos, furando o ar da noite. Parece que só existe algo lá pra onde vamos, não aqui onde estamos. Porque? Não nos olhamos? Porque não nos olhamos? Olho pra cima. Folhas de papel avisam dançando no ar, que tem alguém que olha pra nos acertar: caixa no meio fio dos dedos de um rapaz de boné, em cima de um viaduto. Ele espera para acertar as formiguinhas insignificantes –“formigas/pássaro” que vem andando, e pra ver a caixa atravessar o ar e espatifar no chão.
Vontade de pular. Me vejo nele, no rapaz, querendo atravessar o ar na vertical. Querendo sempre não fazendo, refreando a vontade, refreando, refreando, refreando...
Domingo, Maio 14, 2006
Luares (uma das fases)
- Anjo, porque deixa-me aqui, assim?
- Não deixo-te. Não me vês?
- Não... Ouço-te ás vezes quando estou sozinho, mas penso que és a Lua que toca-me à noite. Mas diga-me, tu és a Lua?
- Posso ser?
- És ou não?... Porque se fores, nem sempre estás comigo!
- Como não?
- Existem noites de não-Lua!
- Como não? A Lua, esconde-se ás vezes atrás do céu, mas de lá, pode-se ver tudo!
- Então moras na Lua!
- Sentes que ela te toca?
- Sim.
- Que mais sentes?
- Ela me envolve com teias de prata, canta cantigas e adormeço...
- Hoje a Lua está cheia.
- Está grande, cheia de luz, deixando pelo céu pingos. Gotejando, gotejando, gotejando...
- Não deixo-te. Não me vês?
- Não... Ouço-te ás vezes quando estou sozinho, mas penso que és a Lua que toca-me à noite. Mas diga-me, tu és a Lua?
- Posso ser?
- És ou não?... Porque se fores, nem sempre estás comigo!
- Como não?
- Existem noites de não-Lua!
- Como não? A Lua, esconde-se ás vezes atrás do céu, mas de lá, pode-se ver tudo!
- Então moras na Lua!
- Sentes que ela te toca?
- Sim.
- Que mais sentes?
- Ela me envolve com teias de prata, canta cantigas e adormeço...
- Hoje a Lua está cheia.
- Está grande, cheia de luz, deixando pelo céu pingos. Gotejando, gotejando, gotejando...
Estrondo!
O que é isso? – me perguntei - Deve ser um caminhão de areia descarregando.
Depois de meia hora, meu pai, que comigo não fala, diz:
- Ce viu o que aconteceu lá fora? Um caminhão de lixo tombou.
- Alguém se machucou?
Silêncio.
Fui lá ver. Quanta gente junta! Pergunto à mulher, sobre o que aconteceu com o motorista, ela me responde:
- Ele ta lá dentro, ta preso entre as “ferrage”. Ele tava descendo o morro e o caminhão perdeu o freio, então ele bateu aqui pra poder desviar das “casa”. Pensô rápido ele. Mas depois de algum tempo, olhando as marcas no chão, tive a impressão de que ela aumentou um pouco. Sabe aquela mania de dramatizar as coisas? O caminhão parecia ter tombado na curva do morro, que não é fácil de subir, nem de descer de tão íngreme.
Permanecíamos ali, vendo o teatro acontecer na rua. Uns tentando não perder seu lugar, outros querendo ver melhor. Um misto de curiosidade impiedosa, e aquela espera de torcedor brasileiro. Todos, com algumas exceções, e sempre há, cuidavam atentos pra que o espetáculo acontecesse. Os bombeiros, em sua parte técnica, disfarçando o “egorgulho” de estarem ali, usando seus equipamentos, mostrando o que “sabem fazer” entre a diversão e a sensação de poder, ao brincar de subir no caminhão tombado. Pareciam retirar todos os equipamentos necessários e desnecessários. Tinha um motorzinho que todos olhavam e pensavam: - “pra que será que é?” demorou, mas descobrimos que o motor era ligado por fios elétricos a uma grande tesoura que também, parecia, servia para cortar ferragens. O médico do posto ao lado, ganhava ares de exclusividade, com seu jaleco branco iluminado pelo sol, pronto, numa paz branda de bom médico. Um pesquisador. Não parecia falar com o paciente, preso na cabine do caminhão de lixo, não precisava. Imagino que sua presença para o homem preso lá dentro, era assustadoramente pacífica. Se é que o cara preso lá dentro tava acordado... Não pude ver. Todos, cada um da sua forma, atuando.
E o povão da Vila, se achegava... Uns arrebentavam o cordão de isolamento; outros tentavam amarra-lo de volta; crianças adentravam, só pelo prazer de ir; mocinhas, como não podiam agüentar sua ansiedade natural, admiravam um bombeiro negão, que parecia trabalhar muito bem, interessado, tanto quanto as mocinhas que gritavam, mas ele interessado em seu trabalho, claro. A essa altura eu já estava do outro lado do caminhão tombado e via a parte de baixo do caminhão, negra asfalto-barro, as rodas tortas do tombamento, estilhaços de vidro no chão... Um cachorro, negro, respeitava o cordão de isolamento, e a criança adentrava o local, quando começaram a retirar a maca do carro de resgate. Todos ficaram atentos. O homem parecia desmaiado sobre a maca. O publico ali presente, começava - sem certeza de que o salvamento deveras ocorrera – a aplaudir, num misto de farra e satisfação, entre outras coisas...
O tempo passou. Já fazem alguns dias que tudo aconteceu. Quando é que o teatro vai ter um impacto como esse?
Fim
Depois de meia hora, meu pai, que comigo não fala, diz:
- Ce viu o que aconteceu lá fora? Um caminhão de lixo tombou.
- Alguém se machucou?
Silêncio.
Fui lá ver. Quanta gente junta! Pergunto à mulher, sobre o que aconteceu com o motorista, ela me responde:
- Ele ta lá dentro, ta preso entre as “ferrage”. Ele tava descendo o morro e o caminhão perdeu o freio, então ele bateu aqui pra poder desviar das “casa”. Pensô rápido ele. Mas depois de algum tempo, olhando as marcas no chão, tive a impressão de que ela aumentou um pouco. Sabe aquela mania de dramatizar as coisas? O caminhão parecia ter tombado na curva do morro, que não é fácil de subir, nem de descer de tão íngreme.
Permanecíamos ali, vendo o teatro acontecer na rua. Uns tentando não perder seu lugar, outros querendo ver melhor. Um misto de curiosidade impiedosa, e aquela espera de torcedor brasileiro. Todos, com algumas exceções, e sempre há, cuidavam atentos pra que o espetáculo acontecesse. Os bombeiros, em sua parte técnica, disfarçando o “egorgulho” de estarem ali, usando seus equipamentos, mostrando o que “sabem fazer” entre a diversão e a sensação de poder, ao brincar de subir no caminhão tombado. Pareciam retirar todos os equipamentos necessários e desnecessários. Tinha um motorzinho que todos olhavam e pensavam: - “pra que será que é?” demorou, mas descobrimos que o motor era ligado por fios elétricos a uma grande tesoura que também, parecia, servia para cortar ferragens. O médico do posto ao lado, ganhava ares de exclusividade, com seu jaleco branco iluminado pelo sol, pronto, numa paz branda de bom médico. Um pesquisador. Não parecia falar com o paciente, preso na cabine do caminhão de lixo, não precisava. Imagino que sua presença para o homem preso lá dentro, era assustadoramente pacífica. Se é que o cara preso lá dentro tava acordado... Não pude ver. Todos, cada um da sua forma, atuando.
E o povão da Vila, se achegava... Uns arrebentavam o cordão de isolamento; outros tentavam amarra-lo de volta; crianças adentravam, só pelo prazer de ir; mocinhas, como não podiam agüentar sua ansiedade natural, admiravam um bombeiro negão, que parecia trabalhar muito bem, interessado, tanto quanto as mocinhas que gritavam, mas ele interessado em seu trabalho, claro. A essa altura eu já estava do outro lado do caminhão tombado e via a parte de baixo do caminhão, negra asfalto-barro, as rodas tortas do tombamento, estilhaços de vidro no chão... Um cachorro, negro, respeitava o cordão de isolamento, e a criança adentrava o local, quando começaram a retirar a maca do carro de resgate. Todos ficaram atentos. O homem parecia desmaiado sobre a maca. O publico ali presente, começava - sem certeza de que o salvamento deveras ocorrera – a aplaudir, num misto de farra e satisfação, entre outras coisas...
O tempo passou. Já fazem alguns dias que tudo aconteceu. Quando é que o teatro vai ter um impacto como esse?
Fim
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